Depoimentos

 

Oceanos, memória

Desde minha infância, tive contato estreito com famílias portuguesas, cujas casas eram ricamente adornadas com azulejos portugueses.

Na Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Maranhão, além de Pernambuco, visitei igrejas e solares revestidos dos azulejos que compunham magníficos painéis.

Mais tarde, logo que me casei, já residindo em Portugal, vivi mergulhada no esplendor da azulejaria: o Palácio Pombal em Oeiras, Palácio Nacional de Queluz, Igreja de são Vicente de Fora em Lisboa, além do Palácio dos Marqueses de Fronteira. As varandas das antigas casas portuguesas me encantavam com o toque ingênuo – dos azulejos e dos poetas populares.

O Estado de Minas Gerais, onde nasci, é separado do litoral brasileiro por cadeias de montanhas, um mar de montanhas azuis. O acesso das caravanas usadas para transportar os azulejos portugueses, na época colonial e depois dela, era dificílimo. Assistiu-se então, à substituição deste material, por imitações pintadas nas paredes das capelas, conventos e solares, utilizando, inclusive, apenas os tons “azul e branco”, com paisagens e pinturas envolvidas por molduras recortadas de talhas douradas.

Aos poucos, fui percebendo que sempre surgiam em meus trabalhos, como pano de fundo, franjas, medalhões, florões, cordões, silhas e volutas.

Meu inconsciente trazia, aos poucos, minha memória afetiva se desdobrando, desatando nós. Com a ajuda de um amigo, mestre azulejeiro português, Sr. Prata, pesquisei, criei matrizes, resgatei desenhos de antigas épocas. Mergulhei fundo, atravessei o mar de montanhas azuis e trouxe os azulejos para dentro do meu atelier, para o acervo das galerias de arte e, novamente, para as paredes das casas do meu país.

 Cármen Quintão-Maio de 2005.
 

 

“... Das matrizes doadas por um mestre azulejeiro português, a pintora procurou extrair o máximo num incessante questionamento, postura natural de quem, através do artifício, visa o raro. E no processo que se segue, o esforço da construção sem afrouxar o fio, desafiando e estimulando Cármen a se confrontar com os próprios limites”.

 

... O azulejo deixou de ser lembrança epidêmica para se transformar sobre as telas em referências quase arquetípicas, aproximando ainda mais Cármen dos padrões estéticos  que acompanham a própria historia da cultura artística brasileira naquilo que a mesma incorporou das terras portuguesas e de seus outros mares...”

 

(Trechos extraídos do texto de Marcos Hill – Professor de Belas Artes da UFMG, historiador e Curador).

 

 

Memorial Tropicalista

 

O sabor das pinturas de Carmem Quintão está na leveza das cores, nas formas redondas, na composição que se expande. Como descrever esta pintura que tem a consciência num passado recente?

As associações e títulos nos remetem ao antropofagismo de olhares, cheiros, cores.


A artista, percebemos, se interessa muito menos por figuras históricas, mas representa uma história individual repleta de memórias. Nos estimula a fantasia rica em detalhes, que acabam, em última análise, abstrata. Uma abstração que com os sentidos (tato, cheiro, visão) necessita ganhar evidência sensorial.


Carmem recorre ao “mito tropical” que é uma herança modernista (Tarsila do Amaral). Nos mostra a evolução visual de “nossa história natural” num movimento retrospectivo e carregado de paciência artesanal.

Pois, assim colorida, ela nos conta a civilização da natureza, nosso lugar histórico, aquilo que é válido para além dos tempos.

 

(Trechos extraídos do texto de Sebastião Miguel. Artista Plástico, Professor Pintura Escola Guignard - UEMG).

 

 

Depois das paisagens

 

Aproximando das pinturas recentes de Carmem Quintão, deparamo-nos com transparências que criam atmosferas interrogativas no tempo. A rara luminosidade tem desdobramentos prismáticos, fluidez, silêncios, gestos, cores densas.


A pintura ganhou uma vibração nova onde a matéria colorida nos aproxima de aquarelas táteis com aprimoramento conceitual e transformações cromáticas em equilíbrio com suas composições.

O real assim recapturado nos fala de lembranças, memórias, com que a artista sabiamente se espelhou numa carta de Freud: “... a memória não se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos...”

 

(Trechos extraídos do texto de Sebastião Miguel. Artista Plástico. Professor Escola Guignard - UEMG).

 

 

Jornal Diário da Tarde – Minas Gerais – Brasil

 

Abordando a temática da memória e seus desdobramentos em vários tempos, a artista plástica Carmem Quintão, inaugura hoje uma exposição de telas na Galeria do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Segundo a artista, a exposição é resultado de suas memórias afetivas e ancestrais.

 

 

Jornal Minas Gerais – Brasil

Carmem Quintão expõe na Galeria do TJ

Aproximando das pinturas recentes de Carmem Quintão, deparamo-nos com transparências que criam atmosferas interrogativas no tempo. A rara luminosidade tem desdobramentos prismáticos, fluidez, silêncios, gestos, cores densas. A geometria na paisagem e na natureza morta é provocadora do olhar, um caráter subjetivo onde a alquimia no espaço se produz por estampas repetidas e espaciais.

A pintura ganhou uma vibração nova onde a matéria colorida nos aproxima de aquarelas táteis com aprimoramento conceitual e transformações cromáticas em equilíbrio com suas composições. O real assim recapturado nos afla de lembranças, memórias, com que a artista se espelhou numa frase de Freud: “... a memória não se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos...”. Assim o artista plástico e professor da Escola Guignard, Sebastião Miguel, refere-se à obra da artista.

Segundo Carmem Quintão, esta exposição é o resultado de suas memórias afetivas e ancestrais. A artista lembra que as artes plásticas sempre tiveram um significado especial para ela: “Decidi dedicar-me às artes em razão de um desejo que cultivei ao longo de toda a minha vida. Vejo nos meus trabalhos uma caminhada de conhecimento e reconhecimento.”

 

 

Jornal Gazeta Mercantil – Minas Gerais – Brasil

 Azulejaria

 

A artista plástica Carmem Quintão apresenta “Oceanos-Memórias” na galeria do Pic Cidade, em Belo Horizonte. Os trabalhos têm como referência a azulejaria portuguesa dos séculos 16 e 17 e a influência moura ou flamenga.